Em alguma outra vida, devemos ter
feito algo muito grave, para sentirmos tanta saudade. Trancar o dedo numa porta
dói. Bater o queixo no chão dói. Dói morder a língua, cólica dói, dói torcer o
tornozelo. Dói bater a cabeça na quina da mesa, carie dói, pedra nos rins
também dói. Mas o que mais dói é a saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma brincadeira de infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do amigo
imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade de nós mesmo, o
tempo não perdoa. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se Ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência
consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas
sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ele para o trabalho, mas
sabiam-se onde. Você podia ficar sem vê-lo, e ele sem vê-la, mas sabiam-se
amanhã. Contudo, quando o Amor de um acaba,ou torna-se menor no outro. Sobra
uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não
saber se ele continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele
continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
O medo do Amor
Medo de amar? Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que
enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos
temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo
ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente
sabe por quê.
O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por
dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se
encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou
simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber
o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor
termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se
encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro,
e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de
romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático.
Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se
acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande
responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto
do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade.
E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em
público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer
vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e
vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com
ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se
desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar
dentro do carro.
Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos
novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também
nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos.
Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos
outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de
resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo.
Vivo por ela.
Vivo por ela sem saber se eu a
encontrei ou se fui encontrado, já não recordo como foi, mas ao final me
conquistou. Vivo por ela que me dá toda a minha força de verdade. Vivo por ela
eu também e não há razão para ter ciúmes, ela é tudo e mais além, como o mais
doce dos perfumes. Ela vai onde quer que eu vá e não deixa a solidão chegar. Mais
que por mim, por ela eu vivo também. Ela é a musa que te convida a sonhar com
coisas lindas em meu piano quando às vezes estou triste. A morte não existe se
ela está aqui. Vivo por ela que me dá todo o amor que é necessário, amor que é forte
e grande como o mar. Vivo por ela que me dá força, valor e realidade para que
eu me sinta um pouco vivo.
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